domingo, 24 de junho de 2012

Quando te perco, te quero.
Piso suavemente no quarto, teclados de piano soltos pelo chão, cada passo é um compasso, um lá branco um dó preto, boca seca, recebo uma brisa e lembro do mar, pela parede nasce do avesso uma árvore do tempo e a casa dos sonhos,  um peixe malhado nada no ar gelado, eu me asfalto arregalado, como referência há um poste no teto, mas o sol escorre quente percorrendo vales, montanhas num rio  ardente amarelo, de frente, na parede verde, vejo um cavalo de corpo de abóbora alegre a saltitar, pisco com os dois olhos e esfrego neles minhas mãos, é vento que forma a nuvem tocando seu bandolim, música para cães e gatos, para laços e estrelas, para a coruja desenhista que sente o toque da folha branca sem ideias, você entende sou apenas um galanteador, um cabelo cheio de molas, meus olhos de armação fria, limpo com lenço minha mente, você sacaneia, eu sambo, sem saber dançar pede de dentro do caule que o mundo se abra como janelas do passado, conte-me sua história, deite bruta na seiva e recupere sua alma estatelada, lamba estas lágrimas coloridas e me ofusque, me sombreie sem culpa, preciso sugar seu jorro meloso, agridoce, corrente, descendente; que som sente, macio ou largo?, puro como o espaço oco que forma seu corpo, o nada do átomo e o tudo, a banana amassada com aveia da manhã, o prato de salada da rotina, o bolo do dia do lixo, o sorriso no olhar, a complacência, o carinho, te armo, suplico às formas espelhadas, engasgo quadriláteros imperfeitos, chove gente num quadro, confundo-me em traços e linhas disformes que formam o focinho de vaca de olhos azuis; por que me trouxe aqui? no meio desta confusão, sou de gêmeos, desconexo, inseguro, juro, o sino seco das pedras do litoral e eu preso nesta sala escorregadia; me espere. também quero sentir, pela visão não dá, um dia comi pirão, só o cheiro me incomoda, cheiro de baba ensopada com olhos boiando de vidro, pupila escura arregalada, que nojo, coloco as pantufas gordas para ficar deitado, que música chata, você sabe do que eu gosto, este relacionamento enrolado no seu perfil social, dá dor de cabeça estes bichos nas nuvens, não me faça mais ver, agora tem mais amigos que eu, e no final eu tava certo, quando te deixei, você é notícia, badalada, com caras e bocas maquiadas, penso em socos estalados, do lado na parede do mundo chegam as borboletas cintilantes, asas de beija flor na velocidade da luz, sucos de gases elementares, relatividade do tempo, sombras, passa rápido ou nem te vejo, tubo de acrílico onde aparecem os ônibus, entro, viajo e saio adiante, paralelepípedos, calçadas, vitrines, orelhão, mendigo de nariz de ouro, favela de gente feliz apesar das dores, praça, Rua das Flores, Boca maldita, Garcez, Batman, assalto, pegaram o moletom da Georgetown, tive memórias; algumas vez te contei? interessa, derrete o relógio numa mesa superficial com um plano só, bengala, a xícara com galo de cores espanholas enfeita seus sonhos de prateleira, sua essência de "jota", molhada, ouço pingos do suor na batida da cama, e então não é você, não é aquário, nem cachoeira, foi-se o verão que passei em claro lendo suas malícias, descobrindo seu ouro em mina, seu quadro de musa, vidros de cores quentes, profundas, com silêncio e ruído intercalados, surtando em "números e constelações em amor com uma mulher" e outros belos. Somos todos assim. Valorizamos o que não tem remédio, quando te perco te quero.
(inspirado em quadros surrealistas)
FS 23612
-->

x