Quando te perco, te quero.
Piso suavemente no quarto, teclados de piano soltos pelo
chão, cada passo é um compasso, um lá branco um dó preto, boca seca, recebo uma
brisa e lembro do mar, pela parede nasce do avesso uma árvore do tempo e a casa
dos sonhos, um peixe malhado nada no ar
gelado, eu me asfalto arregalado, como referência há um poste no teto, mas o
sol escorre quente percorrendo vales, montanhas num rio ardente amarelo, de frente, na parede verde,
vejo um cavalo de corpo de abóbora alegre a saltitar, pisco com os dois olhos e
esfrego neles minhas mãos, é vento que forma a nuvem tocando seu bandolim,
música para cães e gatos, para laços e estrelas, para a coruja desenhista que
sente o toque da folha branca sem ideias, você entende sou apenas um galanteador,
um cabelo cheio de molas, meus olhos de armação fria, limpo com lenço minha
mente, você sacaneia, eu sambo, sem saber dançar pede de dentro do caule que o
mundo se abra como janelas do passado, conte-me sua história, deite bruta na
seiva e recupere sua alma estatelada, lamba estas lágrimas coloridas e me
ofusque, me sombreie sem culpa, preciso sugar seu jorro meloso, agridoce,
corrente, descendente; que som sente, macio ou largo?, puro como o espaço oco
que forma seu corpo, o nada do átomo e o tudo, a banana amassada com aveia da
manhã, o prato de salada da rotina, o bolo do dia do lixo, o sorriso no olhar,
a complacência, o carinho, te armo, suplico às formas espelhadas, engasgo
quadriláteros imperfeitos, chove gente num quadro, confundo-me em traços e
linhas disformes que formam o focinho de vaca de olhos azuis; por que me trouxe
aqui? no meio desta confusão, sou de gêmeos, desconexo, inseguro, juro, o sino
seco das pedras do litoral e eu preso nesta sala escorregadia; me espere.
também quero sentir, pela visão não dá, um dia comi pirão, só o cheiro me
incomoda, cheiro de baba ensopada com olhos boiando de vidro, pupila escura
arregalada, que nojo, coloco as pantufas gordas para ficar deitado, que música
chata, você sabe do que eu gosto, este relacionamento enrolado no seu perfil
social, dá dor de cabeça estes bichos nas nuvens, não me faça mais ver, agora
tem mais amigos que eu, e no final eu tava certo, quando te deixei, você é
notícia, badalada, com caras e bocas maquiadas, penso em socos estalados, do
lado na parede do mundo chegam as borboletas cintilantes, asas de beija flor na
velocidade da luz, sucos de gases elementares, relatividade do tempo, sombras,
passa rápido ou nem te vejo, tubo de acrílico onde aparecem os ônibus, entro,
viajo e saio adiante, paralelepípedos, calçadas, vitrines, orelhão, mendigo de
nariz de ouro, favela de gente feliz apesar das dores, praça, Rua das Flores, Boca
maldita, Garcez, Batman, assalto, pegaram o moletom da Georgetown, tive
memórias; algumas vez te contei? interessa, derrete o relógio numa mesa
superficial com um plano só, bengala, a xícara com galo de cores espanholas
enfeita seus sonhos de prateleira, sua essência de "jota", molhada,
ouço pingos do suor na batida da cama, e então não é você, não é aquário, nem
cachoeira, foi-se o verão que passei em claro lendo suas malícias, descobrindo
seu ouro em mina, seu quadro de musa, vidros de cores quentes, profundas, com
silêncio e ruído intercalados, surtando em "números e constelações em amor
com uma mulher" e outros belos. Somos todos assim. Valorizamos o que não
tem remédio, quando te perco te quero.
(inspirado em quadros surrealistas)
FS 23612
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